TANOEIROS DE PORTUGAL

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FRENTE - COSTAS

1. No livro Tanoaria e Vasilhame, de 1954, José Caldas Nobre da Veiga, escrevia não conhecer qualquer obra em português sobre a arte de construir vasilhame e referia, de 1948, a publicação francesa: Manuel de Tonnelerie.

Em 1930, Emanuel Ribeiro publica, em edição dos Estudos Nacionais (Inst. de Coimbra): Como os nossos Avós Aprenderam uma Profissão, com referências aos Tanoeiros. Encontrámos, de 1943, referência a Do Vasilhame Vinário - Inst. do Vinho do Porto, de Ramiro Mourão.

Em 1975, na brochura A Tanoaria de Esmoriz, da autoria de José Manuel Belard Sílvano, igualmente se faz alusão à dificuldade em encontrar textos sobre o assunto.

Em 1997, a Fundação Juventude edita, da autoria de Sandra Maria Cristino Nogueira: A Tanoaria do Concelho do Cartaxo (Estudo Etno Tecnológico da Actividade).

Antes de serem em ferro, no que se refere aos arcos em madeira torcida (como é exemplo a oliveira) e em vime ou varas de castanho, há algumas referências de Amaral, J. Duarte em O Grande Livro do Vinho, Lisboa, Edição Temas e Debates, 2000.

Para além destas publicações, há que dar nota de um vídeo sobre A arte da Tanoaria de Silvestre Lacerda, do C.R.A.T. (Centro Regional de Artes Tradicionais, do Porto), do ano 2000, salientando-se aí que «…a tanoaria, hoje um processo em extinção, nos finais do século XIX chegou a atingir o impressionante número de 5000 trabalhadores, em cerca de 150 pequenas oficinas e duas dezenas de unidades industriais, envolvendo ainda a grande maioria das empresas ligadas ao comércio do Vinho do Porto».

Em 2002, João Cunha, em edição da Câmara Municipal de Ovar, publica A arte da Tanoaria.

Em 2004, as Publicações Dom Quixote editam, da autoria de Ana Sofia Fonseca, Barca Velha. Histórias de um Vinho, onde a autora recolhe os depoimentos e informações dos três últimos tanoeiros da antiga Casa Ferreirinha (Sogrape Vinhos SA), tanoeiros que visitámos em 2005.

Eis o que apurámos no que se refere à bibliografia sobre o tema.

Achámos que seria oportuno recolher, restaurar, conservar e musealizar, em exposição permanente, o património desta tão ancestral e prestigiada arte.

 

2. Apesar do cimento e do aço inoxidável, quem quiser produzir vinhos e aguardentes não só em quantidade mas em qualidade, terá de o fazer em madeira, numa grande harmonia entre o trabalho do Homem e a Natureza, levando às necessárias transformações físicas, químicas e biológicas.

O Museu da Tanoaria constitui a nossa homenagem aos Tanoeiros de Portugal.

Quem sabe se a Tanoaria, sendo uma actividade do passado, não tem futuro, embora em moldes e mecanismos modernos? Achámos por bem que as gerações futuras, através deste Museu, possam saber como o tanoeiro trabalhava, garantindo assim que, como sempre, os homens e os criadores passam, mas a criação e as obras ficam. Ficam os materiais, as ferramentas e as obras (dornas, balseiros, barris, cascos e tonéis) destes carpinteiros especializados, para os quais, muitas vezes, o metro era a palha tabua e o lápis era o giz, tirando as medidas a olho, dispensando o nível e o esquadro, permitindo assim uma extrema rapidez de execução dos trabalhos, frequentemente objecto de empreitadas para a construção de vasilhame, para exportação.

A melhor madeira para o efeito parece ser o carvalho, não de tipo americano (cujos componentes são demasiado absorvidos pelo vinho), mas de tipo francês.

A madeira mais utilizada parece ser o castanheiro, por ser mais barato, mais leve e mais fácil de trabalhar.

As caves, embora mostrem aos visitantes as cubas em aço inoxidável, salientando o vinho biológico, não deixam de saber que esse vinho, apesar de biológico (ou por ser, talvez, demasiado biológico), nunca adquire as qualidades de um vinho que absorveu as características organolépticas da madeira e a que a porosidade da madeira, deu uma oxidação natural de que resultaram a cor e o paladar.

Por isso, não deixam de mostrar aos visitantes as vasilhas em madeira e, se possível, referindo tratar-se de carvalho francês.

Há quem defenda que o castanho faz vinho mais puro, menos influenciado pela madeira, na cor, no sabor e no aroma.

O fendimento, rachando o tronco em quatro partes, respeitando o veio dos toros, garante estanquicidade das aduelas.

As ripas de madeira são colocadas em pilhas ou grades, em quadrado ou em triângulo, em cima de três ou quatro pedras, ao sol, à chuva e ao vento, que é o melhor tratamento para a madeira, pois os meios artificiais encarecem o produto e tornam a madeira mais quebradiça.

 

3. Depois de surribar, plantar, podar, cavar, sulfatar e vindimar, é preciso transportar as uvas e depois armazenar o vinho nas melhores condições.

Os tanoeiros têm como Orago Santo António de Lisboa e, pela grande importância da sua arte, chegaram a ter, perante a realeza, certos privilégios que a seguir relatamos, com dois exemplos.

Um facto histórico, que atesta a dignidade de que se revestiam os mestres de tanoaria, ocorreu em 1383, quando o tanoeiro Afonso Anes Penedo conseguiu aliciar o povo e a burguesia de Lisboa, a apoiarem a proclamação do Mestre de Aviz, como Regedor e Defensor do Reino.

Também no livro, de 1920, Memórias do Mata-Carochas, o Dr. Antão de Vasconcelos (estudante brasileiro que na segunda metade do século XIX passou a sua irreverência pelas ruas de Coimbra), refere que o Dr. António Jardim foi tanoeiro e que os seus dois irmãos (um lente de Universidade, com exercício no Paço e outro negociante, gerente da Companhia do Gás e bem colocado), privavam em plano superior à do mano tanoeiro, dele se foram segregando.

Sendo assim, o tanoeiro sentiu-se ferido na nobreza do seu honrado trabalho e resolveu subir pelo estudo, tendo feito com distinção o curso de Direito, doutorando-se, acabando como lente catedrático da Faculdade de Direito.

Pois quando D. Pedro V esteve em Coimbra, sabedor desta história, quis conhecer o Dr. Jardim, que mandou dizer que só aceitaria essa alta mercê se Sua Majestade se dignasse aceitar as suas homenagens na sua oficina de tanoeiro.

O rei aceitou e foi recebido pelo Dr. Jardim em trajes de trabalho, na sua oficina de tanoeiro, onde, suspensos de um cabide, estavam o hábito talar de lente, a borla e o capelo.

Por essa ocasião o Rei agraciou, com carta de conselho, o Dr. Jardim, que nunca deixou de ser tanoeiro, pois saía da aula e ia trabalhar na sua oficina, de tal modo que, aquando da exposição no Palácio de Cristal, no Porto, o Dr. Jardim expôs uma tanoaria e ganhou a medalha de ouro.

Estes artífices e seus antepassados merecem que o seu passado tenha futuro e que as actuais e futuras gerações saibam o que é, na madeira (para fazer as aduelas), e depois nas vasilhas e nos arcos, as operações a que a seguir nos referimos, com vista a um breve glossário de tanoaria.

 

4. LAVRAR, TORNEAR, VAZAR, ESQUIVIR, JUNTAR, PAREAR, BASTIR, CORTAR, CHANFRAR, PERFURAR, CRAVAR, DESCRAVAR, REPUXAR, ENCAVILHAR, RISCAR, RODEAR, EMPALHAR, ARRUNHAR, PAREJAR, RABOTAR, GEBRAR.

Para os mais curiosos, e no sentido de melhor interpretar as funções das diversas ferramentas, damos a seguir o significado de algumas destas expressões: Lavrar, aparelhar ou desbastar (tornear ou tornar roliço, por fora, com raspilha ou com o supilho ou plaina pequena; depois vazar ou cavar com a volta por dentro, no .colete., isto é, na parte de aduela, correspondente ao seu comprimento, menos 5/10 cm, em cada ponta, chamando-se talha ao comprimento total de aduela e aba, à distância do Javre à ponta da aduela; a seguir esquivir na parte lateral, também com raspilha, tornando a aduela mais estreita a partir do centro para as pontas e, por fim, juntar com a plaina de três pernas, para que os juntos fiquem completamente desempenados e polidos, para que as aduelas se justaponham perfeitamente, constituindo a operação principal de construção para que a vasilha se não deforme e tenha duração).

Parear ou medir o número de aduelas ou o perímetro máximo do bojo.

Bastir ou vergar a fogo, proveniente do fogareiro no interior da futura vasilha, obrigando as aduelas a vergar, através do cabo do macaco.

A seguir o artesão vai batendo nos arcos, de modo a que estes façam mais pressão sobre as aduelas e apertem mais a vasilha, utilizando a marreta de bastir (que pesa cerca de 5 Kg ) nos cascos de grande capacidade (superior a 800 l .), e a marreta de pena (com cerca de 2Kg de peso) nas vasilhas mais pequenas. Interpõe entre a marreta e o arco, o chaço.

Em Mogofores (Anadia) foi-nos dado a conhecer o chanquilho, peça em ferro com cerca de 18 cm de comprimento, com uma parte de 12 cm , redonda como se fosse um cabo, e uma de 6 cm , de secção quadrangular, com 4 cm de lado, funcionado de maço e que na zona da Malveira chamam chaço de mão.

Na bigorna, cortar ou talhar, chanfrar ou cortar em semi-círculo os arcos, perfurar com ponção, cravar ou fazer entrar os cravos, batendo, descravar, repuxar os arcos.

Encavilhar, riscar e rodear os tampos.

Empalhar os juntos.

Arrunhar as extremidades das aduelas, através do: Cortar, isto é, com a enxó, fazendo em cunha; depois parejar ou alisar; depois com o rabote, plaina de médias dimensões, rabotar, isto é, acertar, operação fundamental para que a aba seja igual em toda a circunferência, para que os tampos se mantenham desempenados; e por fim gebrar, isto é, abrir o roço com a gebradeira. Armar o casco é colocar em pé todas as aduelas, dentro do primeiro arco de bastição.

5. A nossa recolha passou por Paramos, Esmoriz, Maceda, Ovar, Palaçoulo (Miranda do Douro), Viseu, Pampilhosa do Botão (Mealhada), Carapinheira (Montemor-o-Velho), Santa Comba Dão, Tábua, Treixedo, Lousã, Figueiró dos Vinhos, Pombal, Cartaxo, Vila Nova de Gaia (incluindo a Real Companhia Velha), Carrazeda de Ansiães, Felgueiras, Santa Maria da Feira, Sabrosa, Alenquer, Torres Vedras, Loures, Bucelas, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Arruda dos Vinhos e Miranda do Corvo.

Em Alcobaça visitámos o Museu Nacional do Vinho; na Vidigueira e em muitas outras localidades já só as pessoas mais idosas se lembravam dos antigos tanoeiros.

Em Anadia, visitámos o Museu do Vinho.

6. Não podemos deixar de assinalar que em Urzelhe, concelho de Miranda do Corvo, os proprietários da chamada Adega da Rainha, Jerónimo Ramos Falcão e filho, Lucas Ramos Falcão, ofereceram uma muito antiga “chave” ou tornadoura, tornadoira ou tornadura em castanho, de moldar as vergas de vime ou as varas de castanho, destinadas à arcadura das vasilhas, antes dos arcos serem em ferro.

A voz popular diz que a Adega da Rainha pertenceu à Rainha Santa Isabel e ao Convento de Santa Clara.

Mal ou bem, essa relação é referida à Rainha Santa Isabel e não ao Mosteiro de Celas, mas poderia a dita adega já ser da realeza, ainda antes de D.Dinis, pois, D.Sancho I começou por doar ou coutar em Urzelhe, Lamas e Lobazes, sendo certo que foi sua filha, D. Sancha que fundou o Mosteiro de Celas.

Curiosas são estas referências à volta do vinho e dos mosteiros e que se mantêm no imaginário dos residentes nestes meios rurais. Para terminar, dois apontamentos referentes aos tanoeiros de Portugal.

Na inauguração deste museu estará Joaquim Dias, de 88 anos de idade, de Chão de Lamas, que ofereceu sete ferramentas artesanais, e que foi o tanoeiro mais idoso que encontramos nas nossas pesquisas e que, por feliz coincidência, nasceu e reside na zona vinhateira de Miranda do Corvo.

Para representar as futuras gerações de tanoeiros, estará também presente, por amável colaboração da administração das Caves Aliança de Sangalhos, o Pedro, de 23 anos de idade, um dos mais jovens, senão o mais jovem tanoeiro de Portugal, a quem aquelas caves, em boa hora, proporcionaram formação profissional em França.

Da colecção fazem parte peças com dezenas de anos e que continuariam, em muitos casos, a ficar ao pó, aos ratos, à chuva e cobertas de silvas, mato ou teias de aranha e que, assim, ficarão à guarda da Associação de Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo, que fará a sua protecção, com tanto carinho, como protege diariamente os deficientes a seu cargo, porque sabe que está a proteger as ferramentas com que trabalharam os tanoeiros de Portugal. Pensamos que, uma ou outra peça, poderá ser secular, como sucede com o compasso em ferro (o de maiores dimensões que encontrámos).

A Câmara Municipal de Miranda do Corvo está neste empreendimento em parceria com a ADFP, o que constitui mais um garante de que a colecção fica também à guarda do Município.

Em homenagem aos Tanoeiros de Portugal, colaborando com os propósitos da Associação de Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo e com a Autarquia de Miranda do Corvo, minha mulher e eu, oferecemos com o maior gosto e carinho, depositando a colecção em boas mãos, do Dr. Jaime Ramos, digno Presidente da Direcção da ADFP e da Dr.ª Fátima Ramos, ilustre Presidente da Câmara Municipal.

(Joaquim Leitão Couto)

Médico

Miranda do Corvo, Junho de 2006